Se a proposta era contar uma história do Brasil, fica subentendido que não houvera antes quem se desse esse trabalho, o que não é verdade. O viajante inglês Andrew Grant publica em 1809 seu History of Brazil, e esse é só um exemplo de que isso, de certa forma, já havia sido feito antes. No entanto, há dois problemas: a obra de Andrew Grant nunca foi traduzida para o português e nem sequer foi aqui publicada, além disso, não se trata exatamente de uma história do Brasil, mas sim de uma análise detalhada das diferentes políticas portuguesas aplicadas na colônia. Nesse sentido, a proposta de Carl Friedrich Phillipp von Martius é inovadora e, considerando o contexto da época, bastante peculiar. Seu foco não é uma questão econômica, mas uma questão cultural/racial. Se não havia antes uma história do Brasil propriamente dita, foi necessário começar pelo que o autor identificou como a raiz da identidade brasileira: justamente, conforme ele mesmo enunciou, a reunião entre as três raças (culturas): branca, vermelha e negra.

Para um alemão da primeira metade do século XIX, nada mais natural do que buscar uma identidade. Na verdade, a Alemanha ainda não existia na época, de modo que Carl Friedrich Phillipp von Martius era sim bávaro. Os estados alemães, que tanto guerreavam entre si, que falavam dialetos distintos, como até hoje, que rivalizavam e disputavam facilidades econômicas, unir-se-iam pouco mais de vinte anos depois da publicação da dissertação de Carl Friedrich Phillipp von Martius, que vivia havia alguns anos no Brasil. A fim de justificar sua tese de que era preciso reconhecer o povo brasileiro na mescla entre essas três raças/culturas, o autor toma os ingleses como parâmetro, mostrando que também esse povo é formado da união de diferentes povos. E assim se viam os alemães, pois, uma vez que o discurso da unificação é um discurso iluminista, do século XVIII, essa reflexão já era feita pelos intelectuais da época em seus devidos estados, compreendidos como diferentes, mas detentores de uma mesma origem.

Carl Friedrich Phillipp von Martius considera, porém, a formação do brasileiro como algo peculiar, pois as raças/culturas que nos formam são muito distantes entre si. Ainda assim, considerando o caráter distinto do Brasil, ele assinala a necessidade de entender que a confluência entre as culturas africana, indígena e européia é o que acima de tudo forma o caráter do brasileiro, para além de determinadas conjunturas econômicas, como insiste Andrew Grant. É nesse sentido que Carl Friedrich Phillipp von Martius é inovador, não por um alumbramento sobre o Brasil, mas por aplicar a conflituosa questão identitária alemã na análise sobre nosso país.

Segue a grandiosa obra Flora Brasilienses que foi produzido pelo Carl Friedrich Philipp von Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban e 65 especialistas de vários países.